
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
O vírus, a invasão e Salvador. Por Eric M. Delgado

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
ABANDONO NA NOITE DE NATAL - Por Andréia Terciotti Dioclecio
Vinte e quatro de Dezembro, faltando poucos minutos para um novo dia e o menino deitado na calçada sonha acordado, porém de olhos fechados.
E sonhava com tantas coisas absurdas. Quem eram seus pais? Onde estavam seus irmãos? Quando sairia daquela situação? Será que dessa vez Papai Noel lhe traria o carrinho de brinquedo que esperava desde os quatro anos de idade?
Talvez nem fosse esse o seu sonho, mas a sua realidade estava repleta de maus momentos, pois estava morrendo de fome, enjoado pelo mau cheiro do corpo causado pela falta de roupas limpas e de um lugar para tomar banho, cansado de vagar por muitas horas a fio pelas ruas.
Por que nesse momento não aparece ninguém? Nem benfeitores travestidos de Papai Noel, nem os funcionários da Prefeitura que justamente hoje estão em suas casas cuidando de suas famílias. Não aparecem os defensores dos direitos humanos e nem os políticos que, a cada quatro anos, prometem cuidar da sociedade.
A noite de Natal celebra o nascimento do menino Jesus, todos deveriam refletir sobre o sofrimento dos pais desse menino, que se tornaram santos por conseguir trazer à luz, uma criança que ainda iria mudar o mundo de alguma forma e jamais gostaria de ver um dos seus nessa situação.
Aquele menino também esperava mudar o seu mundo, queria ser um doutor e ter a capacidade de mudar a sua própria vida, mas não tinha acesso a educação.
Queria um lar de paz, longe das prostitutas e dos traficantes que o puseram sozinho no mundo, mas como eles, era viciado em drogas.
Queria apenas um colo onde pudesse receber um carinho ou um consolo antes de voltar às ruas que o acolhiam.
Enfim, o menino acabou adormecendo ao relento, cansado da frenética busca por um abrigo e, justamente nessa noite, quando todos comemoram o Natal de Nosso Senhor, iria dormir na rua sem direito a um prato de sopa ou um cobertor para se abrigar do frio.
E adormeceu sob a luz do poste, sem saber se conseguiria abrir os olhos ao amanhecer, pois estava entorpecido de tanto cheirar o tubo de cola de sapateiro que conseguira trocar por umas peças roubadas de uma loja do centro da cidade.
E os seus sonhos? Será que ainda encontraria o seu presente na única meia furada que tinha? Ou a ventania carregaria seus trapos e sonhos que sumiriam na sarjeta?
E assim seguiu sonhando acordado com os olhos fechados, até que seu único e fiel companheiro, um cão abandonado, o deixou a par da realidade ao acordá-lo desse sonho irreal. Lambeu-lhe o rosto clamando por um pouco de atenção e carinho, para juntos saírem à busca de algum alimento para abrandar a fome.
Essa é a cruel realidade que pode ser encontrada nas esquinas de algumas capitais ou grandes cidades brasileiras. Não só na noite de Natal, mas também nesse exato momento, bem pertinho da sua casa a espera de sua atitude.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
DIA DAS CRIANÇAS - Por Kathya
Não direi apenas do meu Brasil
Gritarei a todos os povos
Da discriminação ao mundo infantil.
Dos adolescentes que sobrevivem
A fome, a miséria
A falta do mundo estudantil.
Lembrarei que somos responsáveis
Na Constituição de 1988
Do Estatuto que surgiu.
Nesse conjunto de leis
A criança é sujeito de direito
Tanto á vida quanto a saúde.
Não mais escola para os mais ricos
Nem a separação da família para que trabalhem.
Não podemos ser omissos
Enxergar e não ver.
- É preciso acolher!
Para mais tarde não sofrer.
Cabe ao adolescente o direito ao voto.
Aos deficientes, receber tratamento médico e educacional.
Trabalho para menores de quatorze anos é proibido
(salvo se na condição de aprendiz).
Os trabalhos noturnos são proibidos
Mas não é o que se vê por aí.
É expressamente proibida a venda de armas e explosivos
Bebidas alcoólicas, bilhetes de jogo e loteria.
E aos transgressores da lei?
- Que sejam internados em local adequado
E que possa ser auxiliados.
Porque também são filhos do País.
domingo, 1 de agosto de 2010
Pedágio: Atestado de incompetência governamental. Por Fernando Camelier
Insatisfeito com a quantia arrecadada criou-se o imposto sobre combustíveis com a sigla CIDE - Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico.
Não estou aqui pra questionar a legalidade dos pedágios, mas sobre o absurdo de ter que pagar novamente por algo que você já paga sem saber.
Ora, com a desculpa de que somente pagariam pelo uso das estradas as pessoas que efetivamente a utilizassem, então todos os brasileiros acabam pagando indiretamente, pois assumem os custos mais altos cobrados pelos alimentos, bens de consumo e insumos que circulam por essas estradas pagando os famigerados pedágios.
A história diz que os pedágios começaram a ser autorizados desde o remoto ano de 1346 em estradas construídas com fundos particulares, mas não é o que acontece em nosso país, onde as concessionárias recebem estradas já pavimentadas e fazem algumas melhorias como tampar buracos, construir grandes praças de cobrança e aparar o mato passando a cobrar pela sua utilização.
Na Bahia, onde moro existe por enquanto a CLN que chega a cobrar R$ 6,90 nos finais de semana para veículos pequenos por uma estrada que nem está duplicada em sua totalidade, o que no início era a promessa em troca da cobrança.
Mas essa não é a pior, existem pedágios para o mesmo tipo de veículo que chegam a custar até R$ 18,50 no interior do estado de São Paulo.
No início do ano fui de Curitiba a Foz do Iguaçu e gastei mais com pedágio do que com combustível em estradas que não estavam em tão boas condições, enquanto que no nordeste do país passei por estradas em boas condições sem ser obrigado a pagar mais por isso.
Fica evidente que a cobrança de pedágios é a falta de capacidade dos governantes de cumprirem suas obrigações que em muitos casos foram até mesmo promessas em suas campanhas.
Então, com a chegada das eleições chega também o momento de refletir sobre a possibilidade de mudar para que sejam eleitos governantes que tenham competência e compromisso de assumir a construção e manutenção de estradas garantindo assim o direito constitucional do cidadão de se locomover por todo o território de nosso país.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Brasil e Holanda, uma derrota esperada desde 11 de maio de 2010* Por Eric Magalhães Delgado

Há quem diga que o Brasil perdeu quando Júlio César trombou, inexplicavelmente e infantilmente, com Felipe Melo, o jogador que deu o passe para Robinho no lance do primeiro gol e apresentava o futebol mais sóbrio da seleção até o momento.
Há quem diga que o Brasil perdeu quando Ricardo Teixeira contratou Dunga para dirigir a seleção, a fim de apagar da memória dos milhões de brasileiros a decepção da Copa de 2006, e o viu sem esboçar nenhuma reação a escalação de Afonso e Vagner Love no ataque da seleção.
Há quem diga que o Brasil perdeu quando fez quatro gols, sendo um anulado, e virou de forma sensacional um jogo perdido contra os Estados Unidos, na final da Copa das Confederações de 2007. Afinal, uma seleção que ganha a Copa das Confederações perde a Copa do Mundo do ano seguinte.
Há quem diga que o Brasil perdeu quando Kaká foi transferido do Milan para o Real Madrid, deixando de ser o craque para ser um dos craques do seu time.
Há quem diga, e aí estou incluso, que o Brasil perdeu no dia *11 de maio de 2010*, pouco menos de 2 meses antes do jogo contra a Holanda, dia da convocação da seleção.
O Brasil perdeu porque Dunga não convocou Hernanes, jogador que carrega nas costas o São Paulo por mais de três anos.
O Brasil perdeu porque Dunga não convocou Ganso, jogador que na véspera da convocação da seleção, no dia da final do Campeonato Paulista, disse ao seu treinador que não sairia de campo e foi campeão.
O Brasil perdeu porque Dunga não convocou Ronaldinho Gaúcho, melhor jogador da historia do futebol, caso a escolha se restringisse a um período de dois anos, e que, querendo repetir o feito da Copa de 2002, abandonou as baladas e voltou a jogar futebol, não como o melhor da história, mas como o melhor meia do Brasil.
O Brasil perdeu porque Dunga não convocou Neimar, indiscutivelmente mais eficiente, incisivo e convincente do que seu colega de time, o Robinho, fazendo com que o seu treinador escalasse Robinho como meia.
O Brasil perdeu porque Dunga convocou Doni como goleiro, Daniel Alves e Gilberto como laterais, Luisão e Thiago Silva como zagueiros, Josué, Kleberson e Ramires como volantes, Júlio Batista como meia e, finalmente, Nilmar e Grafite como atacantes.
Dunga deve ter esquecido que numa Copa do Mundo as seleções jogam a cada quatro dias e os jogadores, ao final da temporada européia, estão desgastados, podendo se machucar facilmente. Era inevitável uma contusão. Ou duas.
Dunga deveria de ter peça de reposição para a sua seleção, mas a confiança de Dunga estava focada em, apenas, três jogadores, talvez função das três substituições permitidas por jogo. Um deles era Daniel Alves, que de lateral nesta Copa deve ter jogado por 5 minutos, enquanto Maicon era atendido pelo médico da seleção. Outro era Ramires, volante. O outro era Nilmar, atacante.
Acontece que no jogo contra a Holanda Ramires estava suspenso e Elano contundido. Apenas um jogador, então, seria capaz de mudar a história do jogo: o Nilmar, que não é o Neimar.
Dunga estava angustiado após a trombada de Júlio César com Felipe Melo. Será que essa angustia existiria se no banco de reservas estivessem, ao lado dos confiáveis, Hernanes como volante, Ganso e Ronaldinho Gaúcho como meias e, finalmente, Neimar como atacante?!?
Dunga deve ter esquecido que treinava a seleção brasileira. Por um momento deve ter pensado que estava no seu sítio, no interior do Rio Grande do Sul, numa bela manhã de domingo e, após o churrasco e a cerveja, armaria uma pelada com seus amigos.
Um dos amigos, o Doni, se apresentou a um amistoso do Brasil, descumprindo determinação dos dirigentes do seu time. De lá para cá amargou o banco de reservas do seu time.
Outro amigo, o Kleberson, se machucou no amistoso que o Brasil fez contra a Estônia no dia 12 de agosto de 2009. De lá para cá se passaram alguns meses, uma cirurgia e Kleberson amargou o banco de reservas do seu time até ser convocado para a seleção brasileira.
Outro amigo, o Josué, fez uma grande partida pelo Brasil, na final da Copa América de 2008, quando marcou de forma precisa Riquelme, craque da Argentina. De lá para cá jogou, apenas, alguns minutos pela seleção.
Outro amigo, o Júlio Batista, foi outro que conquistou a vaga dois anos antes da Copa de 2010, na final da Copa América de 2008, quando marcou um belo gol. De lá para cá amargou a reserva tanto do seu time quanto da seleção.
E a lista continua... de Doni a Júlio Batista, passando por Kaká e Robinho.
Eis uma seleção de amigos.
Na parte tática da sua seleção, Dunga não inovou. Apenas repetiu uma fórmula antes usada por Felipão na Copa de 2002. De forma simplista, Felipão escalava a sua seleção com um ótimo goleiro, sete marcadores e três craques. Dunga repetiu o esquema tático, com algumas ressalvas, obviamente.
Uma delas é que Lúcio e Gilberto Silva estavam oito anos mais experientes, para não mencionar que estavam mais velhos. Outra ressalva é que ninguém em sã consciência compararia Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo com Kaká, Robinho e Luís Fabiano, respectivamente.
Rivaldo nunca foi um jogador completo como Kaká, mas na Copa de 2002 estava no auge da sua forma, diferente de Kaká que nos últimos meses jogou, apenas, alguns minutos pelo seu time. Sem mencionar detalhes da final da Copa de 2002 contra a Alemanha, na qual Rivaldo foi fundamental, assim como Ronaldo, até as quartas de final Rivaldo foi brilhante e decisivo para o Brasil. Tudo começou no lançamento para Ronaldo contra a Turquia, na estréia, passou pelo chute que desmontou a Bélgica nas oitavas de final e finalizou nas quartas de final, quando Rivaldo fez um lindo gol contra a Inglaterra. Em dois desses jogos o Brasil perdia, mas conseguiu reverter o placar.
Ronaldinho Gaúcho na Copa de 2002 era o Ronaldinho Gaúcho que o Brasil queria rever na Copa de 2006. Ou seja, não tem como comparar o melhor da história com Robinho, o rei das pedaladas.
Ronaldo...enfim, Ronaldo é Ronaldo. Luis Fabiano é Luis Fabiano.
Voltando à Copa de 2010, o Brasil perdeu jogando bem o primeiro tempo do jogo contra a Holanda. No intervalo estava um a zero para o Brasil, mas poderia estar dois ou três a zero. Estaria definido se Kaká acertasse um de seus chutes, se Juan acertasse o seu chute, se o goleiro da Holanda não defendesse o chute de Maicon ou se o juiz japonês fosse um pouco melhor, o que o levaria a marcar o pênalti claro sofrido por Kaká e expulsar o volante e capitão da Holanda após diversas faltas desleais.
Acontece que o Brasil não ganhou. E o fim foi a já comentada trombada de Júlio César com Felipe Melo. Não houve reação. Não havia ninguém no banco de reservas do Brasil, incluindo o seu técnico, capaz de mudar a história.
O Brasil perdeu, assim como perdeu nas Copas de 1998 e 2006.
Em cada uma dessas Copas, após as derrotas, os jornalistas descarregam as suas angustias descrevendo as circunstâncias dos bastidores, umas fantasiosas, outras não. Na Copa de 1998, por exemplo, foi Ronaldo e a sua convulsão; na Copa de 2006, Ronaldo e o sobrepeso, Roberto Carlos e o meião, Ronaldinho Gaúho e as baladas.
Verdade seja dita: o treinador é o culpado. É, foi e sempre será.
Como brasileiro e fanático pelo futebol, espero, mais uma vez, que o próximo treinador do Brasil tenha a capacidade de não se comprometer com os jogadores, de forma que no próximo *11 de maio de 2010*, véspera da Copa de 2014, sejam escolhidos os melhores no momento.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Desrespeito ao consumidor

Cito o caso de meu amigo e primo Marcelo que nas felizes comemorações do final do ano passado comprou uma tv lcd de 42 polegadas da PHILIPS na expectativa de levar para sua família um pouco mais de conforto.
E depois de quatro meses o susto... A tv apresentou defeito. Foi levada à Assistência técnica autorizada em garantia contratual e mais de um mês depois a única resposta era de que a peça não havia chegado e nem era fornecida uma previsão de conserto.
Bem, o nosso ilustre herói (Fica parecendo que estamos em um Big Brohter), resolveu entrar em contato com o SAC da PHILIPS e aí começou o absurdo: foi completamente ignorado e quando ameaçou entrar no PROCOM acabou ouvindo a famosa musiquinha de espera.
A partir daí o Marcelo tentou sites de reclamação como o “nuncamais.net” ou o “Reclame aqui” e a empresa citada nem tomou conhecimento. Qual a saída? Aplicar o CDC - Código de Defesa do Consumidor - através do PROCOM. O CDC, instituído pela Lei 8078, cita em seu artigo 18, parágrafo 1º-II que a quantia paga deverá ser restituída se o consumidor preferir.
E assim foi solicitada no PROCOM a devolução do dinheiro pago, mas o mais interessante é que alguns dias depois a PHILIPS entrou desesperadamente em contato oferecendo novos produtos. As ofertas eram tentadoras chegando até a uma tv de 52 polegadas e mais um home theather em troca da retirada da queixa. O mais legal é que depois da queixa não houve mais musiquinha de espera e nem tampouco o consumidor tenha sido novamente ignorado.
Nossa, como as coisas mudam quando o consumidor resolve exigir que se respeitem os seus direitos, né? O que me deixou mais feliz foi a firmeza de nosso herói de não mais aceitar acordo com essa empresa e exigir o seu dinheiro de volta. Ele certamente pensou que aceitando a oferta iria aceitar também uma dor de cabeça maior.
Sem acordo restou à PHILIPS a devolução da quantia paga e, com o dinheiro de volta o Marcelo pôde comprar uma nova televisão, muito mais moderna e confiável (de outro fabricante, claro) e assim poder dar à sua família o conforto que imaginara no ano passado.
Essa verídica historinha acontece todos os dias, com milhares de consumidores brasileiros e nem sempre tem finais como esse.
O cidadão tem que aprender a exigir os seus direitos e as empresas que se instalam no nosso país tem que saber que aqui existem normas que devem ser cumpridas.
A dica que deixo para as empresas é que observem o que os seus profissionais de marketing indicam, afinal quando você consegue encantar o seu cliente ele certamente fará propaganda gratuita de sua empresa, enquanto que um cliente insatisfeito pode arranhar irreversivelmente a sua imagem.Com certeza, nem o Marcelo, nem eu e nem nossos amigos voltarão a comprar um produto PHILIPS.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
PASSEIO SOCRÁTICO
Frei Betto
Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.
Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...'. 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação!'
Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra!
Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...
A palavra hoje é 'entretenimento'. Domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.
O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista.
Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental, três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo.
E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas... Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald's...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas:'Estou apenas fazendo um passeio socrático. Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz!".
segunda-feira, 5 de abril de 2010
SOLIDÃO x SOLIDARIEDADE Por Kthyja
Creio se tratar de um sentimento de que algo ou alguém está faltando. Uma sensação de separatividade e desconexão com algo ainda inconsciente; a idéia da separação e do estar só é apenas uma ilusão, pois nada se vai totalmente e nada está separado. Direi que a solidão é mais do que o sentimento de querer uma companhia ou querer realizar alguma atividade, talvez seja indecifrável, enigmático, quem sabe um registro da vida moderna. Muitos são os indivíduos e poucas são as pessoas.
É tudo tão corrido, tão apressado e ao mesmo instante tão fugaz, que não percebemos diante dos nossos olhos o pedido de socorro daquele que esta á nossa frente. Queremos justificar a essa falta de afeto e não encontramos as palavras; há um distanciamento tão repentinamente que tudo se torna disperso.
O percentual de pessoas que declararam não ter amigos confidentes cresceu assustadoramente. É comum ouvirmos “não posso confiar.” Sartre afirmou que acreditava numa solidão epistêmica, onde a solidão é parte fundamental da condição humana por causa do paradoxo entre o desejo consciente do homem de encontrar um significado dentro do isolamento e do vazio do universo. Entretanto, prefiro crer que os indivíduos precisam se engajar ativamente uns aos outros e formar o universo do companheirismo e da solidariedade.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Projeto Espicha Verão: Salvador/ Bahia Por Kthyja
Pergunto-me constantemente ate quando nós, seres humanos, poderemos nos identificar como espécie oriunda de um Ser Superior.
Observo insistentemente que o passar do tempo em nosso Brasil não significa respeito, dignidade; aliás, desde o nascimento, e a cada dia que passa, mais e mais são as criaturas jogadas como lixo humano.
Somos descartáveis, insignificantes, ou nos enganamos por trás de uma cortina nojenta chamada sociedade?
O passar dos tempos no reino dos irracionais demonstra respeito, culto ao mais velho como forma de aprendizado. Entretanto, os depósitos onde são jogados aqueles que não conseguiram o chamado patrimônio financeiro, é o reduto inevitável.
Mas, como “enriquecer” e tão ridiculamente ouvir colher os frutos do que plantou, se ate para os que conseguiram concluir o curso superior é desafiador? Os cursos e concurseiros lotam as salas e ali vivenciam utopias ao se imaginarem estabilizados (mal sabem que no “funil” poucos são os sobreviventes). E para se tornar gari, é preciso ter o curso médio – sim, isso mesmo. O curso que conduz a universidade. Parece ate piada, mas é verdade. Triste realidade!
O comércio ambulante se espalha pelas metrópoles e até pelo interior como uma praga, cujo inseticida é a guerra da caça de “gato e rato”: de um lado, fiscais em busca de fazer valer o que lhe disseram ser autoridade – apreender as mercadorias daqueles que conseguiram com muita luta adquirir o mínimo para tentar a sobrevivência; do outro, homens, mulheres e crianças de todas as idades e as chamadas classes sociais, buscando reerguer-se.
Para completar a esse triste quadro, a Bahia cria o projeto “Espicha Verão” dizendo ter como objetivo revitalizar o bairro da Barra, que já esta tão machucada com a depredação que ali se instalou, e ainda valorizar cantores da nossa baianidade (mas e onde estão esses cantores?).
O que se vê verdadeiramente são palcos mirabolantes montados na tentativa de esconder o desemprego, a miséria, a fome, as dores do nosso povo. Encontramos demarcação de áreas consideradas exclusiva de alguns; locais que poderiam se tornar em espaços higienizados com água potável e sanitários para os vendedores sendo privatizados, grupos folclóricos lutando para mostrar a reminiscência do nosso povo, que também era embalada por um grupo alegre e colorido de cantadores que conduziam a massa ao som de violas simples como a vida de um povo que envelhece e procura a tal dignidade.
Nota do Blogstorm:
Vale também conferir o artigo "O fundo da folia" em:
http://www.globalgarbage.org/blog/index.php/2010/03/05/o-fundo-da-folia/
Esse artigo fala da sujeira deixada pelo carnaval e projetos culturais no fundo do mar da barra.
Kthyja é uma grande amiga de muitos anos.
Se você gostou do texto acesse o blog Oficina literária em:
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Mau atendimento X Satisfação do cliente por Luís Fernando Camelier
Hoje resolvi escrever sobre esse assunto na cidade de Salvador, que infeliz e imperdoavelmente sofre com a falta de atenção dos empresários locais. Aqui ainda acontecem situações de mau atendimento a clientes em diversos setores, principalmente no da alimentação.
Semana passada deparei com um caso interessante: No restaurante Pavarotti do Salvador Shopping havia um prato apimentado sem nenhuma informação do que se tratava, ou seja, quem não come pimenta poderia se servir sem saber que aquele troço ali ardia. Ao reclamar com a atendente, percebi que ela nem olhou na minha cara e nem respondeu. Quando perguntei se ela entendeu o que falei, me respondeu de forma ríspida que já havia falado sobre o assunto com os proprietários do estabelecimento e nada foi feito até aquele momento.
Caramba! Pra que diabos existe o marketing, se não for pra fidelizar e encantar o cliente? Pelo que pude perceber, com o tratamento que recebi, quem vai aplaudir de pé o tal Pavarotti é a concorrência, até mesmo porque lá eu não vou mais.
Então hoje fui ao Monalisa no mesmo shopping. O mesmo esquema de comida self service por quilo e ao pegar a salada.... Putz... um cabelo e não era meu. Pedi outro prato mostrando o cabelo e a atendente o fez como um favor, demonstrando uma má vontade terrível. Certamente Leonardo Da Vinci ficaria no mínimo triste ao ver o nome de sua obra prima ser tão mal usado.
Ano passado estive em Praia do Forte, Pizzaria Cia do Forte, um atendimento sofrível, inclusive a turistas de outros países. O que será que eles vão comentar em seus países sobre a Bahia e o Brasil?
Pra essa turma sugiro a leitura do texto do Pedro Overbeck, Receita de sucesso, nos arquivos de 2009 do Blogstorm. Quem sabe um dia essa galera aprenda...
Lógico que tem os que se salvam. O Pasta Fast do Salvador Shopping, por exemplo me surpreendeu, pois escrevi um recado no papelzinho “Deixe a sua opinião” e o chef do restaurante me ligou agradecendo sobre a observação garantindo que tem intenção de melhorar seu atendimento e deixar o cliente satisfeito. Bem, esse aí está no caminho certo.

