quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"Precisa-se de Matéria Prima para construir um País" Por João Ubaldo Ribeiro


Texto retirado do jornal do meio ambiente, publicado em 14 de novembro de 2005, por João Ubaldo Ribeiro. 


A crença geral anterior era que Collor não servia, bem como Itamar e
Fernando Henrique. Agora dizemos que Lula não serve.
E o que vier depois de Lula também não servirá para nada..

Por isso estou começando a suspeitar que o problema
não está no ladrão corrupto que foi Collor, ou na farsa que é o Lula.
O problema está em nós. Nós como POVO.
Nós como matéria prima de um país.

Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA" é a moeda
que sempre é valorizada, tanto ou mais do que o dólar.

Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma
virtude mais apreciada do que formar uma família, baseada em valores e
respeito aos demais.

Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais
jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas
caixas nas calçadas onde se paga por um só jornal...
E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO OS DEMAIS ONDE
ESTÃO.

Pertenço ao país onde as "EMPRESAS PRIVADAS" são
papelarias particulares de seus empregados desonestos, que levam
para casa, como se fosse correto, folhas de papel, lápis, canetas, clipes
e tudo o que possa ser útil para o trabalho dos filhos ...e para eles mesmos.

Pertenço a um país onde a gente se sente o máximo
porque conseguiu "puxar" a tevê a cabo do vizinho, onde a gente frauda a
declaração de imposto de renda para não pagar ou pagar menos impostos.

Pertenço a um país onde a impontualidade é um hábito.

Onde os diretores das empresas não valorizam o
capital humano.

Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as
pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo
por não limpar os esgotos.

Onde pessoas fazem "gatos" para roubar luz e água e
nos queixamos de como esses serviços estão caros.

Onde não existe a cultura pela leitura (exemplo maior
nosso atual Presidente, que recentemente falou que é "muito chato
ter que ler") e não há consciência nem memória política, histórica nem
econômica.

Onde nossos congressistas trabalham dois dias por semana para aprovar
projetos e leis que só servem para afundar ao que não tem, encher o saco
ao que tem pouco e beneficiar só a alguns.

Pertenço a um país onde as carteiras de motorista e os certificados
médicos podem ser "comprados", sem fazer nenhum exame.

Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança
nos braços, ou um inválido, fica em pé no ônibus, enquanto a pessoa que
está sentada finge que dorme para não dar o lugar.

Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o
pedestre. Um país onde fazemos um monte de coisa errada, mas nos
esbaldamos em criticar nossos governantes.

Quanto mais analiso os defeitos do Fernando Henrique e do Lula, melhor me
sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem "molhei" a mão de um guarda
de trânsito para não ser multado.

Quanto mais digo o quanto o Dirceu é culpado, melhor sou eu como
brasileiro, apesar de ainda hoje de manhã passei para trás um cliente
através de uma fraude, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.

Não! Não! Não! Já basta!!.

Como "Matéria Prima" de um país, temos muitas coisas boas, mas nos falta
muito para sermos os homens e mulheres que nosso país precisa.

Esses defeitos, essa "ESPERTEZA BRASILEIRA"
congênita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até
converter-se em casos de escândalo, essa falta de qualidade humana, mais do
que Collor, Itamar, Fernando Henrique ou Lula, é que é real e
honestamente ruim, porque todos eles são brasileiros como nós, ELEITOS POR NÓS.
Nascidos aqui, não em outra parte...

Me entristeço.

Porque, ainda que Lula renunciasse hoje mesmo, o próximo presidente que
o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima
defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.
E não poderá fazer nada...

Não tenho nenhuma garantia de que alguém o possa fazer melhor, mas
enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar
primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Collor, nem serviu Itamar, não serviu Fernando Henrique, e nem
serve Lula, nem servirá o que vier.

Qual é a alternativa?

Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a
força e por meio do terror?

Aqui faz falta outra coisa.
E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de
baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro
para os lados, ou como queiram, seguiremos
igualmente condenados, igualmente estancados....igualmente sacaneados!!!

É muito gostoso ser brasileiro.
Mas quando essa brasilinidade autóctone começa a ser
um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, aí a
coisa muda...

Não esperemos acender uma vela a todos os Santos, a ver se nos mandam um
Messias.

Nós temos que mudar, um novo governador com os mesmos
brasileiros não poderá fazer nada.
Está muito claro... Somos nós os que temos que
mudar.

Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que
anda nos acontecendo:
desculpamos a mediocridade mediante programas de
televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso.
É a indústria da desculpa e da estupidez.

Agora, depois desta mensagem, francamente decidi
procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim,
exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de surdo, de
desentendido.

Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE
O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.

AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.

E você, o que pensa?.. MEDITE! 


.
.
.
João Ubaldo Ribeiro é escritor consagrado. Baiano da ilha de Itaparica. Particularmente gosto muito de seus livros e textos.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O letreiro lá do alto por Marcelo Torres

Desde os tempos de Salvador, toda vez que passava pelo Rio Vermelho, a pé ou de carro, porque de ônibus ou de bicicleta não dava pé, este pecador prestava atenção num letreiro há anos pregado lá no alto de um templo:

“Arrependei-vos e crede no Evangelho.”




De dia, indo ou vindo, ali entre o Largo da Mariquita e o Largo de Santana, há de se notar a famosa frase bíblica, um chamado para a conversão que teria sido feito por Jesus Cristo, segundo Marcos.

Curioso – talvez estratégico – é que o aviso reluz alto entre notórias casas profanas da cidade, como o Boteco do França, o Botequim São Jorge e o Bar Padaria, na mais famosa zona boêmia de Salvador.

À noite, então, é que o imperativo fica ainda mais vistoso, porque iluminado em verde neon. Já de longe se vê a frase, que paira sobre carros, ônibus, postes, prédios, pessoas, árvores.  

“Iemanjá se mira
Em seu líquido espelho
De búzios e luzes
Quando a voz atroz
Dublando Jeová
Adverte Iemanjá
Num tom grisalho, velho:
Arrependei-vos
E crede no Evangelho!” (Canção do Monte Conselho, Nei Lopes)

Não há como não reparar o chamativo neon verde.

Veem-no os dois banhistas da noite, que se demoram entre pedras e areias; os andantes que vagam sem pressa pelas calçadas; os meninos que vendem amendoim nas mesas dos largos; os homens e mulheres a beber e comer.

Avistam-no os viajantes, de lá das janelas dos hotéis ou das piscinas nos terraços. Quantos, ali, viajam a negócios? Quantos são turistas? Quantos visitam igrejas?  Quantos são os gringos? Quantos fazem turismo sexual?   

Arrependei-vos e crede...

E veem-no, do alto dos prédios, os moradores do Rio Vermelho, de Amaralina e da Vasco da Gama, para que se arrependam de toda gula e avareza, da ira e da luxúria, da inveja, da preguiça, da vaidade.

Arrependei-vos, ó reles pecadores!

Desde os tempos em que morava em Salvador, toda vez que passava pelo Rio Vermelho, eu sempre olhava lá para cima, não necessariamente para me arrepender e crer, mas sim para contemplar aquela conjugação.

Achava divina a conjugação do verbo crer. Admirava esse imperativo afirmativo, ainda mais na segunda pessoa do plural - crede vós. E lá vinha o futuro do presente do indicativo: eu crê-lo-ei; tu crê-lo-ás; ele crê-lo-á; nós crê-lo-emos; vós crê-lo-eis; eles crê-lo-ão.

Crê-lo-ão eles, os crentes?

E viajava no verbo até o pretérito perfeito simples: eu cri, tu creste, ele creu, nós cremos, vós crestes, eles creram. Nessa viagem, o “cri” e o “creu” faziam surgir uma voz a indagar:

- É cri mesmo?
- Sim, verbo crer, primeira pessoa do....
- E esse creu! É creu mesmo?
- Sim, ele creu.
- Ele creu?!?
- Sim: é terceira pessoa do singular do pretérito...
- Chega! Cruz credo!

Esses dias, revisitando Salvador, ainda no hotel, entrei no Google e dei um pulo na Tabacaria - a Tabacaria de Álvaro de Campos, o heterônimo de Fernando Pessoa - e lá estava o “cri” num verso, um verso que parecia epitáfio: “Vivi, estudei, amei, e até cri”.

Outra busca eletrônica e chego à Poesia Seleta do pernambucano Benedito Cunha Melo:

Fez-me lembrar a voz do grilo
Noite adentro, aqui, ali
A paz do mundo tranquilo
Em que já cri...ci...cri.

Então, lá fui eu: Pituba, Amaralina, Rio Vermelho, Mariquita e, lá no alto: “Arrependei-vos e crede no Evangelho”. Descendo a vista, porém, via-se na parede bege do templo evangélico uma pichação:

“Enfia a mão no bolso, querido irmão”.


Se não estivesse na Soterópolis, a cidade do Salvador, capital da Bahia de Todos os Santos, talvez eu não tivesse crido. Mas cri – sem enfiar a mão no bolso, óbvio. E só cri porque vi. 
.
.
.
Marcelo Torres é cronista e gentilmente autorizou a reprodução de suas crônicas no Blogstorm
Se gostou das crônicas do Marcelo, entre em contato através do e-mail marcelocronista@gmail.com

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Maratonas - Desafios Por Pedro Alberto Brasil

Como vários de vocês sabem, no último dia 07/10/2012, tive a oportunidade de encarar um desafio, a Maratona de Chicago, junto com a Lú e a Lica, dentre outras pessoas.
Bem, gostaria de registrar que todos nós completamos esta prova, com muita luta e desafios pessoais, que cada um carregou durante esta corrida. De minha parte, posso ressaltar que terminar uma prova desta magnitude me encheu de muita alegria, emoção e orgulho.
Aprendi que, durante as 05h 13' 23'', tempo oficial, (pace 7:26/km - veloc. 8,3k/h) que permaneci correndo e alguns momentos andando, que corrida não se faz de pernas e pulmões. O coração, no sentido físico e emocional é o principal articulador e mola propulsora para conseguirmos chegar até o fim. A cabeça como alguns dizem, não me fez QUEBRAR, pois meu CORAÇÂO estava a frente de tudo.
Correr sozinho, sem música e num frio de 0°C numa prova tão longa, não trouxe para mim, desânimo ou quaisquer outros sentimentos que me fizessem parar. A cada dificuldade enfrentada, cada um de vocês se fez presente. É impressionante, chegava a conversar com cada um de vocês ao longo desses 42,2 km. A Juliana e as meninas, nem se falam, pois são fontes inesgotáveis de incentivo, energia e amor.
Gostaria de agradecer a todos vocês que me incentivam a conquistar novos desafios, sejam os profissionais que me assistem, sejam os amigos que dão força e torcem por mim.
Não posso esquecer, logicamente, da turma do boteco, fiéis companheiros e porque não, atletas das mais diversas categorias. A vocês, tenham orgulho, pois passo a ser um maratonista, de Boteco.
O tempo que fiz, para alguns soa vergonhoso, mas podem ter a certeza, de que me sinto um campeão, pois viver o que vivi nesta prova, não se mede em palavras ou TEMPO e sim em sentimentos.
Fica registrado um grande abraço a todos vocês e saibam, que tenho orgulho de tê-los ao meu lado, assim como tive orgulho de ter terminado esta Maratona.


Pedro Alberto Brasil é Engenheiro, mora em Belo Horizonte e se tornou um grande amigo/irmão há alguns anos. Foi o primeiro cara que me incentivou a correr como forma de me exercitar e me divertir. Hoje estou me preparando para os meus primeiros 10 km e futuramente correrei em provas como a Volta da Pampulha (18km) e a São Silvestre (15 km). Esse depoimento mostra que todos nós somos capazes, bastando vontade e claro, uma boa assessoria esportiva.



terça-feira, 4 de setembro de 2012

A MÁQUINA E O HOMO-SAPÍENS’ por Maria José Camelier

Mecanismos, ferragens,
botões se movimentam
luzes se acendem
E a máquina devora tudo
e o homem fica mudo
querendo ajoelhar-se naquele pedestal de aço...

A máquina é isso aí que vejo
Será que satisfiz o meu desejo
vendo a homem com os dedos
Dizer que do cálculo não tem medo
Porque a sua inteligência
Já sabe o que quer...

Sua mente é infinita
cada vez evoluindo...

Mas não sente que o progresso
diminui a sua força de em Deus acreditar
Tornando-o materialista
Muitas vezes fatalista
Não tendo jeito pra dar...

Os botões são pressionados
Tudo ali é programado
É tudo muito bem feito
era que a máquina ou o homem
É símbolo de perfeição...

O homem está evoluindo
mas esquece que está diminuindo
Diante da miséria que passa os seus irmãos
Será que a máquina lhe ensina
A mudar a triste sina
De quem está virando lixo?...
A máquina dá jeito nisso?...

4..3...2...1... gravando... perfeição
E você, homo-sapiens
Encontrou a solução...

(Maria José Camelier, in livro de Poesias Pétalas Vermelhas, 1997)

Na década de 70, quando professora em um colégio público, consegui levar cerca de 40 alunos para um centro de Informática (Prodeb) e lá fomos informados da existência do primeiro computador em Washington (enorme) e os outros que iam surgindo bem menores em tamanho porém aumentando mais as informações. Como mensagem, lá deixei um poema que mais tarde foi musicado por um aluno e 1º lugar em concurso litero-musical. Deixo aqui como ilustração ao trabalho :
.
.
.
Maria José Camelier é minha tia, professora da língua portuguesa e me ensinou a escrever direito. Tem alguns livros publicados. Esse é o primeiro poema de muitos que ainda serão publicados no Blogstorm

domingo, 29 de julho de 2012

O coco queimou - Incêndio no Coco Bahia Por Fernando Camelier


Domingo passado, dia 22 de julho de 2012, uma das melhores casas de gastronomia da Bahia pegou fogo, trata-se do Coco Bahia, onde podíamos saborear tapioca, pizzas e degustar drinks espetaculares com preços honestos e um atendimento acima do padrão oferecido em uma cidade como Salvador.
Estar no Coco Bahia dava uma sensação de fugir da nossa realidade, compartilhando bons momentos em um ambiente familiar, no clima agradável de uma floresta tropical, ao som de boa música ambiente convivendo harmoniosamente com aves e peixes ornamentais.
E os aniversários? Curtir a alegria que todos os atendentes proporcionavam cantando Ilariê, batendo panelas e revolucionando a vida das pessoas sem cobrar mais por isso.
É esse o estilo de atendimento que os moradores de Salvador merecem e essa é a minha singela homenagem ao Coco Bahia, lembrando que, da mesma forma que a Fênix renasce mais bela das cinzas, o Coco queimado poderá vir a ser mais saboroso ainda.
Fico aqui na torcida para que essa excelente casa possa ser reerguida voltando com toda força e oferecendo aos seus clientes o atendimento nota 10 que a Bahia merece!

* Foto antes e depois retirada do site Ibahia.com

domingo, 20 de maio de 2012

Nota de repúdio Por Servidores da Anatel Bahia

Os servidores da Anatel lotados no Escritório Regional da Bahia- ER08 editaram Nota de Repúdio contra a atual gestão da Anatel.

Nota de repúdio

Servidores da Agência Nacional de Telecomunicações – Anatel, lotados no Escritório Regional da Bahia – ER08, reunidos no dia 16 de maio de 2012, manifestam o seu total repúdio à Portaria nº 461/2012, que anula artigos da Portaria 430/2009, retirando uma ...séria de conquistas benéficas para a sociedade e o serviço público.

Repudiam, ainda, a postura autoritária e déspota do Presidente do Conselho Diretor, João Batista de Rezende, que:

a) Evita manter o diálogo constante com os representantes da categoria, agindo de modo arbitrário em decisões que interferem diretamente no cotidiano dos servidores;
b) Faltou com a transparência e não trouxe à tona a discussão com os servidores sobre as intenções acerca do tema, ao arrepio da Lei nº 12.527, de 18 de novembro 2011;
c) Não apresentou qualquer motivação legítima para alterar a jornada estabelecida na Portaria nº 430, de 2009, baseando sua decisões em parecer absolutamente opinativo e extremamente contestável;
d) Não considerou os indicadores de aumento de produtividade destacados pela gestão anterior;
e) Desconsiderou o impacto negativo da anulação dos artigos da Portaria nº 430, de 2009, tanto à Administração Pública como aos servidores;
f) Desconsiderou o parecer emitido pelo Tribunal de Contas da União – TCU acerca do tema;
g) Não dá transparência aos processos seletivos para cargos comissionados, descumprindo o disposto nos artigos 27 e 33 da Lei nº 10.871, de 20 de maio de 2004;
h) Traz desequilíbrio ao clima organizacional da instituição;
i) Adota visão retrógrada de gestão de recursos humanos.
.
.
.
Nota do Sinagências:
O sentimento dos servidores é que a Anatel vem sendo sucateada. Pensávamos que o novo governo iria trabalhar para o fortalecimento das Agências -- como bem dito pela Presidenta Dilma em seu discurso de posse -- entretanto, o que se vê é uma busca pelo enfraquecimento das Agências para que não exerça de forma eficiente o seu dever. Algumas ...medidas mostram este enfraquecimento: o quadro de funcionários é pequeno para atender as demandas da sociedade; questões orçamentárias, diárias e passagens, benefícios de servidores que são autorizados pelo Ministério das Comunicações; dentre outros. Será que não deveríamos ter mais independência?
Quanto à gestão dos recursos humanos o problema vem aumentando: vários servidores têm deixado a Agência para servirem a outros órgãos, os contratos terceirizados foram cancelados, o posto médico foi fechado, não há estagiários suficientes, e agora acabaram com o horário flexível e corrido que era considerado pelos colegas um benefício enorme. Esta última atitude configurou a "gota d'água" para os servidores.
Acreditamos que a gestão anterior tinha uma visão moderna e preocupada com o bem-estar do servidor e defendia a autonomia das agências. Por outro lado, na nova gestão, o pensamento é de que as agências não possuem autonomia administrativa e que a prerrogativa é da Secretaria de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento.
Hoje fomos informados que a portaria instituída pela gestão anterior foi considerada ilegal, não teremos mais o horário de 7h + 1h de sobreaviso e que teremos 30 dias para nos adaptar ao novo modelo. Ora, 30 dias? Imagine só o transtorno que teremos para estruturar neste curto tempo tudo aquilo que vem sendo feito e organizado por 3 anos. Hoje eu acompanhava os estudos da minha filha pequena em casa, marcava médicos e tratamentos sem precisar sair do horário de trabalho, fugia dos engarrafamentos, ia a academia e podia levar minha filha também, ganhava tempo de qualidade com a minha família e cuidava da saúde - ganhava em qualidade de vida!
O interessante é que adotamos este modelo chamado HFlex há 3 (três) anos e havia um respaldo do TCU que entendeu que a Anatel tem sim autonomia para gerenciar os seus recursos humanos. Inclusive, outros órgãos adotam modelos parecidos de jornada de trabalho tais como Banco Central, Receita Federal, CGU, TCU e outros.
Além disso, foram realizados estudos que demonstraram resultados positivos do horário flexível, sendo um deles o um aumento no horário de atendimento ao público que passou a ser das 7h às 20h ininterruptas ao invés das 8h às 18h. Se contar ainda com o nível de motivação dos servidores e o clima organizacional que melhoraram muito, a perda é ainda maior. Consideramos o HFlex uma conquista, um benefício e uma demonstração de valorização do servidor por parte da alta gestão. Vários países do mundo vêm buscando trabalhar em prol do resultado organizacional com a determinação de garantir da qualidade de vida dos seus funcionários.
Esta atitude foi a "gota d'água" mesmo, o descrédito, a indignação e a tristeza dos funcionários é notória. Ontem viemos vestidos de "preto" para mostrar o nosso luto. Estamos mobilizados e assustados com as novas atitudes da nova gestão da Anatel.

Ademais, neste momento, cabe a nós servidores tentar entender o que configura essa tal de autonomia das agências reguladoras em regime especial? Será que existe mesmo? Até aonde vai?

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Nosso Abril Despedaçado - por Félix Alberto Lima

Hoje foi um dia daqueles para não se acreditar na notícia. Dia de duvidar. De ter medo de abrir o jornal. Medo de acordar e não ter sonhado. De ligar a televisão. De ouvir o rádio. Medo da verdade. A madrugada foi longa. Pela manhã Décio Sá estava só nas manchetes. Não mais como porta-voz dos fatos, das investigações e das provocações. Ele era a notícia, comovente, cortante, aterradora.

Conheci Décio Sá nos corredores da universidade. Simples, de origem humilde e gestos largos, chegou ao curso de Comunicação na segunda metade da década de 80 com uma vontade imensa de virar repórter, de ser um homem de jornal, de conhecer os segredos da palavras. Acolhido no curso como um bom sujeito, sem papas na língua, foi companheiro de boas viagens, carregador de alegrias ao lado do amigo Bottentuit, observador inquieto, ingênuo nas primeiras empreitadas amorosas, jogador de futebol sem futuro, indomável quando acuado.

Décio Sá tinha planos e sabia o que queria. Fazia o futuro todos os dias. Virou homem feito, pai de família e transformou-se no repórter mais sagaz de sua geração. E por isso mesmo cultivou ao longo do caminho uma terra vasta de admiradores e alguns quarteirões de desafetos. Estava sempre à frente de todos. Como correspondente da Folha de S. Paulo, viveu a sua experiência mais audaciosa e tumultuada, com reportagens que lhe renderam reconhecimento e birras. Trabalhou na redação de O Imparcial, tomou partido do contra, criou polêmicas, deixou o emprego, entrou em quarentena até chegar de vez ao Sistema Mirante. Trabalhamos juntos na redação de O Estado do Maranhão e ali experimentamos a chegada do computador ao jornal.

Estava sempre apressado como um eterno foca de redação, olhos sobressaltados, ombro curvado e uma caderneta de anotações na mão e uma resma de perguntas prontas. Corria riscos, mas os riscos não importavam. O importante era correr e chegar primeiro, como numa gincana juvenil de uma equipe sem capitão. Assim era o Décio Sá.

Bonachão com os amigos mais próximos, sincero nas atitudes, generoso com a família e implacável na pena, Décio Sá foi um desses colegas de profissão que sabia multiplicar suas fontes, cotejando-as com sabedoria e delicadeza no exercício do jornalismo. Aprendeu a domar como poucos o informante, a informação e os informados.

O blog foi o divisor de águas. Décio Sá tinha lado, e fazia questão de expor as suas preferências musicais, políticas, esportivas. Metia-se até em briga de galo. Às vezes de forma sutil, noutras nem tanto. E por ter lado, em alguns momentos navegou contra a correnteza, provocou crises nas esferas de governo, fomentou fogo amigo e estimulou a queda de secretários ou a cassação de prefeitos.

Foi com essa personalidade forte, em permanente estado de ebulição, que Décio Sá tombou na noite de ontem, com cinco tiros a queima roupa. Mas não caiu sozinho. Caímos com ele, envergonhados e tristes. E por isso mesmo amanhecemos hoje com medo de acordar.
.
.
.

* Félix Alberto é Jornalista e escritor, estudou comigo e com Décio Sá no curso de Comunicação Social da Universidade Federal do maranhão no início da década de 90 e, como eu e todo o mundo está indignado com o brutal assassinato do amigo Décio. Conheça os artigos de Félix Alberto em http://oredemoinho.blogspot.com.br/

 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

VENTOS DE MUDANÇA Por Flávio Dino

Os doze meses de 2011 foram intensos e inesquecíveis em várias partes do mundo. Basta lembrar que, em janeiro do ano passado, o mundo se impressionava com as notícias de manifestações populares no Egito, que culminaram com a renúncia de Hosni Mubarak, que governou o país por 30 anos. Foram convocadas eleições, mas o povo egípcio segue na Praça Tahir, exigindo maior democracia e transparência.
As manifestações populares, muitas delas organizadas por meio das redes sociais via internet, também resultaram na chamada Revolução do Jasmim, que derrubou o presidente da Tunísia, seguindo-se vários processos de mudança política no Oriente Médio e no Norte da África, em impressionantes insurreições populares. Não à toa, todo esse processo vem sendo chamado de Primavera Árabe, por sacudir uma região tão rica cultural e financeiramente, mas tantas vezes oprimida por governos autoritários, sustentados durante décadas por potências imperialistas.
O mesmo recado dado pelos povos árabes sacudiu a Europa e os Estados Unidos. Lá, os adversários não eram apenas os governantes de turno. Mas, sobretudo, a opressão financeira exercida por grandes bancos e corporações, criticada tão vitoriosamente pelo movimento Occupy Wall Street, em Nova Iorque, que produziu momentos exemplares, como as passeatas do dia 15 de outubro – realizadas em escala global. Pela Europa, espalharam-se protestos contra as tentativas de governos locais de transferir para a maioria da população o custo dacrise financeira, causada pela concentração de riqueza e por políticas recessivas que aniquilaram o mercado interno. Milhares de cidadãos foram às ruas – como o movimento Indignados, na Porta do Sol em Madri – para exigir que não fossem reduzidos direitos sociais para gerar os recursos necessários ao socorro de bancos, em vez de serem enfrentadas as reais causas da crise.
Este agravamento, em 2011, da crise que teve início em 2008 foi um fato marcante do ano que passou. Desta vez, foram atingidas fortemente economias mais centrais, como a da Itália, levando a se cogitar até mesmo a extinção do Euro e, no limite, da União Européia. Tais medidas, se adotadas, seriam uma derrota política, dado que representaria o fim de uma tentativa de cooperação econômica que transpassasse fronteiras, na qual o Mercosul e a Unasul se espelharam para surgir.
Em meio a este cenário mundial nada simples, a América Latina como um todo, com destaque para o Brasil, vem consolidando seu bom momento, que conjuga a um só tempo crescimento econômico, distribuição de renda e democracia plena. Essa combinação inédita está permitindo que enfrentemos a crise sem reduzir direitos sociais. Como divulgado amplamente na semana passada, já somos a sexta maior economia do mundo, e caminhamos com rapidez para estar entre as cinco mais fortes.
Repete-se, assim, a receita que permitiu ao Brasil atravessar a tormenta de 2008: apostar fortemente na distribuição de renda para formar um mercado interno de massas, que dê sustentabilidade ao crescimento.
Nossa economia, durante décadas, cresceu pouco e para poucos. Como toda a indústria, o comércio e o sistema financeiro do país estavam voltados a uma minoria com poder de compra, qualquer crescimento um pouco maior gerava inflação. Para solucionar o problema, o governo tentava segurar a inflação segurando também o crescimento, com aumento de tributação e/ou dos juros.
Nos últimos anos, aprendemos que não só podemos crescer gerando mais renda para todos os brasileiros, como essa é a forma mais sustentável de garantir que a economia continue girando. No entanto, novos momentos desafiadores no cenário externo exigem renovações ousadas dos caminhos que escolhemos. Precisamos aprofundar as políticas de desenvolvimento, ampliando as políticas de distribuição de renda para além das medidas compensatórias, buscando reformas estruturais que alterem os critérios de uso e partilha da riqueza socialmente produzida. Esse é um debate fundamental para os movimentos sociais e representantes políticos retomarem a partir do ano que agora começa.
Os ventos de mudança que percorreram o planeta em 2011, e que continuarão agitando as folhas das árvores do poder em 2012, chegarão a milhares de municípios brasileiros, com as eleições municipais. O ano que se inicia será marcado pelo debate intenso sobre os rumos de cada um dos mais de 5 mil municípios brasileiros – sendo 217 localizados no nosso Maranhão.
Além de dirigir a Embratur, a grande tarefa política a que me dedicarei em 2012 será ajudar as nossas cidades a eleger prefeitos, vice-prefeitos e vereadores honestos e trabalhadores, que governem bem, não tenham medo de pressões nem cedam a cooptações sempre almejadas pelos operadores da oligarquia decadente. As gigantescas hélices que impulsionam os ventos da mudança, em todos os recantos do mundo, estão em nossos corações, no nosso espírito. Fazê-las girar depende de uma férrea vontade coletiva, baseada nos sonhos e desejos de cada um. Que Deus nos inspire e ajude neste ano de 2012.
Feliz ano novo para todas as famílias do Maranhão.
.
.
.
Flávio Dino foi Deputado Federal pelo PcdoB do Maranhão e hoje preside a Embratur. Um grande amigo com quem tive o privilégio de estudar no ensino médio no Colégio Maristas em São Luís.

sábado, 10 de dezembro de 2011

O dia em que soube que tinha morrido (Especial para o encontro da turma Maristas de 85) por Fernando Camelier

Parece um pesadelo, mas um dia me disseram que eu tinha morrido, o meu pâncreas estava mal e eu acabei não suportando.
Fiquei pensando nas consequências da notícia, no quanto minha mãe dizia que não queria me enterrar e no quanto minha esposa sofreria com isso.
Logo agora que encontrei a mulher da minha vida e estamos tão felizes...
Imaginei o quanto eu ainda poderia fazer pelos outros e que não teria mais essa chance, o perdão que não pude pedir a quem eu penso que tenha feito algum mal e a possibilidade de demonstrar o quanto admiro os meus amigos.
Mas a notícia espalhou e consegui enxergar alguns que sofreram e que agora estão pensando na visão fantasmagórica de um eu muito doido... Mas essa é a minha cara, desde que me conheceram eu era assim e não é a pseudo-morte que vai me fazer mudar esse meu jeito...
E eu que pensava em andar de carro elétrico todos os dias, que pensava em construir uma moradia sustentável e estava com um projeto para diminuir nosso consumo de energia e água...
Putz... Fui morrer logo agora que comecei a correr e estou enchendo meu armário com medalhas de participação de todas as provas que aparecem pela frente...
E eu pensando que estava buscando saúde...
E aquele negócio do fazer a minha parte?
Eu já plantei uma árvore, mas ainda não fiz um filho e o livro tá programado pra daqui a uns 30 anos.
Nesse instante eu pensava na feijoada que ia rolar em 2015 com a turma Maristas, meus amigos que mesmo estando distante nunca são esquecidos...
Não, me recuso a ir por enquanto...
Meu braço ficou roxo de tanto beliscão, mas dessa vez passou longe e começo a perceber que continuo aqui.
Vou me escondendo da morte enquanto tiver fôlego e sigo na vida feliz e dançando...
Então dance comigo e viva feliz enquanto tem vida pra viver...
.
.
.
Há alguns dias um bom amigo me falou que ficou feliz em receber notícias minhas pois toda a turma achou que eu tinha morrido.
Não morri, e peço a gentileza de quando receber essas informações que não deixem de me avisar.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Seu Pendrive tem Blutufe?





Oswaldo tirou o papel do bolso, conferiu a anotação e perguntou à balconista:
- Moça, vocês têm pendrive?
- Temos, sim.
­-O que é pendrive? Pode me esclarecer? Meu filho me pediu para comprar um.
- Bom, pendrive é um aparelho em que o senhor salva tudo o que tem no computador.
- Ah, É como um disquete...
- Não. No pendrive o senhor pode salvar textos, imagens e filmes. O disquete, que nem existe mais, só salva texto.
- Ah, tá bom. Vou querer.
- Quantos gigas?
­- Hein?...
- De quantos gigas o senhor quer o seu pendrive?
-­ O que é giga?
- É o tamanho do pen.
-­ Ah, tá. Eu queria um pequeno, que dê para levar no bolso sem fazer muito volume.
- Todos são pequenos, senhor. O tamanho, aí, é a quantidade de coisas que ele pode arquivar.
­- Ah, tá. E quantos tamanhos têm?
- Dois, quatro, oito, dezesseis gigas...
­- Hmmmm, meu filho não falou quantos gigas queria.
- Neste caso, o melhor é levar o maior.
­- Sim, eu acho que sim. Quanto custa?
- Bem, o preço varia conforme o tamanho. A sua entrada é USB?
­ - Como?...
- É que para acoplar o pen no computador, tem que ter uma entrada compatível.
­- USB não é a potência do ar condicionado?
- Não, aquilo é BTU.
­- Ah! É isso mesmo. Confundi as iniciais. Bom, sei lá se a minha entrada é USB.
- USB é assim ó: com dentinhos que se encaixam nos buraquinhos do computador. O outro tipo é este, o P2, mais tradicional, o senhor só tem que enfiar o pino no buraco redondo. O seu computador é novo ou velho? Se for novo é USB, se for velho é P2.
-­ Acho que o meu tem uns dois anos. O anterior ainda era com disquete. Lembra do disquete?
- Quadradinho, preto, fácil de carregar, quase não tinha peso. O meu primeiro computador funcionava com aqueles disquetes do tipo bolacha, grandões e quadrados. Era bem mais simples, não acha? Os de hoje nem têm mais entrada para disquete. Ou é CD ou pendrive.
­- Que coisa! Bem, não sei o que fazer. Acho melhor perguntar ao meu filho.
- Quem sabe o senhor liga pra ele?
­- Bem que eu gostaria, mas meu celular é novo, tem tanta coisa nele que ainda nem aprendi a discar.
- Deixa eu ver. Poxa, um Smarthphone! Este é bom mesmo! Tem Bluetooth, woofle, brufle, trifle, banda larga, teclado touchpad, câmera fotográfica, flash, filmadora, radio AM/FM, TV digital, dá pra mandar e receber e-mail, torpedo direcional, micro-ondas e conexão wireless....
-­ Blu... Blu... Blutufe? E micro-ondas? Dá prá cozinhar com ele?
- Não senhor. Assim o senhor me faz rir. É que ele funciona no sub-padrão, por isso é muito mais rápido.
-­ Pra que serve esse tal de blutufe?
- É para um celular comunicar com outro, sem fio.
- Que maravilha! Essa é uma grande novidade! Mas os celulares já não se comunicam com os outros sem usar fio? Nunca precisei fio para ligar para outro celular. Fio em celular, que eu saiba, é apenas para carregar a bateria...
- Não, já vi que o senhor não entende nada, mesmo. Com o Bluetooth o senhor passa os dados do seu celular para outro, sem usar fio. Lista de telefones, por exemplo.
­- Ah, e antes precisava fio?
- Não, tinha que trocar o chip.
­- Hein? Ah, sim, o chip. E hoje não precisa mais chip...
- Precisa, sim, mas o Bluetooth é bem melhor.
­- Legal esse negócio do chip. O meu celular tem chip?
- Momentinho... Deixa eu ver... Sim, tem chip.
­ - E faço o quê, com o chip?
- Se o senhor quiser trocar de operadora, portabilidade, o senhor sabe.
- Sei, sim, portabilidade, não é? Claro que sei. Não ia saber uma coisa dessas, tão simples? Imagino, então que para ligar tudo isso, no meu celular, depois de fazer um curso de dois meses, eu só preciso clicar nuns duzentos botões...
- Nããão! É tudo muito simples, o senhor logo apreende. Quer ligar para o seu filho? Anote aqui o número dele. Isso. Agora é só teclar, um momentinho, e apertar no botão verde... pronto, está chamando.
-Oswaldo segura o celular com a ponta dos dedos, temendo ser levado pelos ares, para um outro planeta: Oi filhão, é o papai. Sim. Me diz, filho, o seu pen drive é de quantos... Como é mesmo o nome? Ah, obrigado, quantos gigas? Quatro gigas está bom? Ótimo. E tem outra coisa, o que era mesmo? Nossa conexão é USB? É? Que loucura.

-­ Então tá, filho, papai está comprando o teu pen drive. De noite eu levo para casa.
- Que idade tem seu filho?
­- Vai fazer dez em março.
- Que gracinha...
­- É isso moça, vou levar um de quatro gigas, com conexão USB.
- Certo, senhor. Quer para presente?
-Mais tarde, no escritório, examinou o pendrive, um minúsculo objeto, menor do que um isqueiro, capaz de gravar filmes! Onde iremos parar? Olha, com receio, para o celular sobre a mesa. "Máquina infernal", pensa. Tudo o que ele quer é um telefone, para discar e receber chamadas. E tem, nas mãos, um equipamento sofisticado, tão complexo que ninguém que não seja especialista ou tenha a infelicidade de ter mais de quarenta, saberá compreender.
- Em casa, ele entrega o pen drive ao filho e pede para ver como funciona. O garoto insere o aparelho e na tela abre-se uma janela. Em seguida, com o mouse, abre uma página da internet, em inglês. Seleciona umas palavras e um 'havy metal' infernal invade o quarto e os ouvidos de Oswaldo.
-Um outro clique e, quando a música termina, o garoto diz:
-Pronto, pai, baixei a música. Agora eu levo o pendrive para qualquer lugar e onde tiver uma entrada USB eu posso ouvir a música. No meu celular, por exemplo.
-­ Teu celular tem entrada USB?
- É lógico. O teu também tem.
­- É? Quer dizer que eu posso gravar músicas num pen drive e ouvir pelo celular?
- Se o senhor não quiser baixar direto da internet...
-Naquela noite, antes de dormir, deu um beijo em Clarinha e disse:
­- Sabe que eu tenho Blutufe?
-Como é que é?
­- Bluetufe. Não vai me dizer que não sabe o que é?
- Não enche, Oswaldo, deixa eu dormir.
-­ Meu bem, lembra como era boa a vida, quando telefone era telefone, gravador era gravador, toca-discos tocava discos e a gente só tinha que apertar um botão, para as coisas funcionarem?
-Claro que lembro, Oswaldo. Hoje é bem melhor, né?
- Várias coisas numa só, até Bluetufe você tem. E conexão USB também.
- Que ótimo, Oswaldo, meus parabéns.
­- Clarinha, com tanta tecnologia a gente envelhece cada vez mais rápido. Fico doente de pensar em quanta coisa existe, por aí, que nunca vou usar.
- Ué? Por quê?
­- Porque eu recém tinha aprendido a usar computador e celular e tudo o que sei já está superado.
- Por falar nisso temos que trocar nossa televisão.
­- Ué? A nossa estragou?
- Não. Mas a nossa não tem HD, tecla SAP, slowmotion e reset.
­- Tudo isso?...
- Tudo.
­- A nova vai ter blutufe?
- Boa noite, Oswaldo, vai dormir que eu não agüento mais...

(o autor é desconhecido, mas pode ser algum de nós, ou alguém, que nasceu nos anos 40, 50, 60,70, 80, até nos 90)